quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Ilha dos Arvoredos - Paraíso da Sustentabilidade

 Artigo publicado em setembro de 2022



O grande sonho de todo cientista é ter seu projeto inovador de pesquisa aplicado à realidade. Seja na descoberta de um novo medicamento que traga a cura para uma doença, ou um produto que solucione uma demanda existente, ou um mecanismo que transforme a vida das pessoas através de novos conhecimentos. Isso é “Pesquisa em Benefício da Humanidade”.


Este é o lema da Fundação Fernando Eduardo Lee, que mantém a missão da Ilha dos Arvoredos, rochedo localizado a 1,6 km da costa de Guarujá/SP, onde lidero um grupo de pesquisadores. Muito mais do que apenas um cartão postal da cidade, a Ilha reúne projetos ambientais e científicos e um passado muito pitoresco. 


A história da Ilha dos Arvoredos, paraíso da Sustentabilidade, tem início nas décadas de 1950 e 1960 a partir do pioneirismo e do sonho de vida do engenheiro Fernando Eduardo Lee. Lá, ele desenvolveu pesquisas em energias alternativas e sustentabilidade, criou soluções arquitetônicas para torná-la autossustentável em água potável e realizou diversos experimentos em fauna e flora, transformando-a em uma verdadeira ilha encantada e um centro de estudos a céu aberto. Antes de falecer, Fernando Lee criou a Fundação que leva seu nome. 


Dando sequência ao trabalho, a universidade Unaerp Guarujá, em parceria com a Fundação, vem realizando há mais de duas décadas diversas pesquisas científicas na ilha, com o objetivo de continuar o legado desse patrimônio ambiental, científico e cultural. 


São estudos como o do Horto Medicinal, onde se investiga a efetividade terapêutica de plantas medicinais cultivadas neste ambiente costeiro. Outro exemplo são projetos na área de Engenharia, que analisam as estruturas arquitetônicas em concreto armado presentes na Ilha quanto à agressividade do ambiente marinho. 


Experimentos com energias renováveis também tiveram a Ilha como objeto de estudo, bem como a diversidade biótica. Nos levantamentos históricos, foi possível perceber que a experiência com uma planta originária da Mata Atlântica, a Neumarica caerulea, introduzida na Ilha para solucionar problemas de erosão, rendeu na década de 1980 a Fernando Lee o prêmio Hugh Hammond Bennet International, concedido pela organização internacional Soil Conservation Society pelo trabalho de conservação do solo.


Este palco diversificado de produção científica e de observação da Sustentabilidade na prática também me instigou. Como educadora, em minha tese de doutorado, criei um modelo de Educação Ambiental, por meio de metodologias ativas, em que a Ilha dos Arvoredos é o cenário propício para o processo de ensino-aprendizagem sobre novas atitudes ambientais. Pois a interação com a Ilha e contato com toda essa dinâmica ambiental certamente impacta e se torna uma experiência única e transformadora na vida das pessoas. 


A partir desse modelo educacional, e graças à parceria entre a Fundação Fernando Eduardo Lee e Instituto Nova Maré, minha pesquisa tornou-se realidade. O projeto Mundo Sustentável atualmente possibilita o contato do público com a Ilha em visitas educacionais e turismo ecológico, convidando as pessoas a aprenderem conceitos como sustentabilidade, gestão de resíduos sólidos e educação ambiental. Tudo isso está presente no livro "Ilha dos Arvoredos - Paraíso da Sustentabilidade", que lancei no início do ano.  


Nossa maior esperança é que cada vez mais pessoas do nosso País e de outras nacionalidades conheçam a Ilha, participem do Projeto Mundo Sustentável, e sintam a energia que está presente em cada rocha, em cada folha das árvores, em cada brisa do mar. E assim poderemos completar nossa missão de Pesquisa em Benefício da Humanidade, pensando nas futuras gerações.


Priscilla Bonini Ribeiro é educadora, doutora em Tecnologia Ambiental, mestre em Educação, diretora-geral da Unaerp Campus Guarujá e pesquisadora da Fundação Fernando Eduardo Lee.


quinta-feira, 14 de julho de 2022

‘Resetar’ é necessário

Artigo publicado em julho de 2022






Quem diria que um inimigo invisível atingiria de forma tão violenta nosso mundo. Especificamente no nosso País, estávamos lutando para colocar em prática as estratégias para atingirmos as metas pactuadas pelo Plano Nacional de Educação 2020. Grande parte dessas metas ainda não haviam sido alcançadas e, depois de dois anos de pandemia, os números e as análises que se chegam não são nada animadores.


Com a escrita, procuro me libertar das angústias de um cenário tão complexo e refletir sobre concepções para o futuro.


Focando em uma das metas do PNE para o Ensino Superior, que é a de inserção dos jovens de 18 a 24 anos na universidade, o Plano Nacional de Educação havia estabelecido como objetivo até 2024 ter 33% dos brasileiros nessa faixa etária estudando um curso superior. Porém, um levantamento recente da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior (ABMES) e da Educa Insights aponta que essa meta só deverá ser atingida em 2040. Isso representa, infelizmente, 16 anos de atraso. 


Comparando com os dados de 2019, ou seja, antes da pandemia, essa meta já estava desacelerando, com a expectativa de atingimento em 2037. Ainda não temos a real visão dos impactos pandêmicos em nosso País, mas a projeção indica que os números sejam piores. Isso pode comprometer o desenvolvimento de conhecimento, tecnologia e produção científica no futuro caso nada de novo seja implementado. 


Fiz parte da elaboração do Plano Estadual de Educação e do Plano Municipal de Educação de Guarujá e sei da relevância deste processo. Por isso, me entristece ver essa dura realidade. Em abril de 2021, no meu artigo “Recesso Pandêmico”, já avaliava a necessidade de superarmos o que denominei de déficit educacional composto, ou seja, um déficit pandêmico aplicado sobre um déficit educacional que já existia antes. 


Há necessidade urgente de priorizar a Educação, em todos os níveis. Mas nesse caso específico do Ensino Superior, precisamos incrementar novas políticas de incentivo, ou ajustar as já existentes, que realmente permitam o acesso dos jovens e os motivem a continuarem seus estudos e, dessa forma, retomar as metas e avanços do PNE estabelecidos anos atrás. É crucial também agirmos para diminuir a evasão e trazer de volta os jovens que enfrentaram barreiras durante a pandemia para se manterem nos bancos acadêmicos.


É preciso resetar nossa compreensão das ações educacionais, e fazermos um novo pacto pela Educação. A luta contra o déficit educacional deve ser encampada por toda a sociedade, por gestores e educadores, e deve sobrepor todas as bandeiras partidárias. Juntos precisamos de um novo esforço coletivo para desenvolvermos políticas públicas e implementarmos novas práticas visando diminuir esse déficit tão danoso para o futuro de nossa Nação e garantirmos aos nossos jovens a realização do sonho do diploma universitário.



Priscilla Bonini Ribeiro - Educadora, doutora em Tecnologia Ambiental, mestre em Educação, diretora geral da Unaerp Campus Guarujá, ex-conselheira estadual de Educação, ex-secretária de Educação do Município de Guarujá, ex-presidente da Região Sudeste da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e ex-presidente da Undime São Paulo.